quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Creio, creiamos!

pastorrildoreis.com.br

     A tradição cristã nos ensinou a rezar o Credo Apostólico com os artigos da fé professados na primeira pessoa do singular “Creio...”. Aliás, é assim que está nas fórmulas latinas dos Padres da Igreja (Credo in Deum Patrem omnipotentem), razão pela qual a oração passou a ser designada em Português como Credo ou Creio. A reflexão teológica acerca da forma gramatical é simples: como a fé é uma adesão pessoal, uma resposta individual da pessoa humana ao dom da fé oferecido por Deus. Devemos cada qual dizer por nós mesmos “creio”; devemos nos responsabilizar com esse ato de fala, pelo compromisso que assumimos. Não nos esqueçamos das palavras do Apóstolo Paulo: “Se com tua boca confessares que Jesus é o Senhor, e se em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” (Rm 10:9).
     A nova edição do Livro de Oração Comum (LOC) da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), publicado em 2015, parece postar-se na contramão dessa tradição, quando coloca os artigos de fé professados na primeira pessoa do plural “Cremos”. Abre-se espaço, assim, para a crítica sobre a massificação da vida de fé, a despersonalização do ato de crer, o dissolvimento do compromisso que a fé pressupõe.
     Todavia, entremos na lógica interna da reflexão teológica propulsora da mudança gramatical. Ela também é muito simples: a fé possui uma dimensão comunitária, que suscita e significa o ato de crer. Ninguém chega à vivência da fé sozinho, mas porque outros lhe instigaram-na. O Apóstolo Paulo já dizia: “Como invocarão aquele em quem não têm fé? E como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão falar, se não houver quem pregue?” (Rm 9:14).
     Nesse sentido, voltando ao Credo, precisamos dizer que o “cremos” do novo LOC abarca e pressupõe o “creio”, mas o “creio” não pressupõe nem explicita o “Cremos”. E por que é necessária essa alteração? Todo texto tem seu contexto e seu pré-texto. Vivemos em tempos nos quais somos atraídos à vivência isolada da fé. Não nos esqueçamos de que um dos valores inegociáveis de nosso tempo é a individualidade, que às vezes descamba em individualismo, inclusive na dimensão espiritual. Por essa razão, é necessário explicitar que o “creio” reclama o “cremos”, instiga pertença e implicação com os demais.
     Sendo assim, só podemos considerar salutar a iniciativa da Comissão Nacional de Liturgia da IEAB, a qual não se prescinde da Tradição, mas a enlarguece, amplifica-a. Creio, creiamos!

     Por Adriano Portela dos Santos: educador e teólogo.