quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Tradição cultural e civilização em choque

     Acerola, feijão verde, aipim e conde são alguns dos produtos vendidos na feira que acontece no centro de Aquidauana (MS), pela manhã, duas vezes por semana. O grupo de feirantes é da nação Terena, uma das comunidades indígenas que existem no interior do Estado. Tanto os Terena quanto as demais etnias são transportadas por ônibus mantidos pela Prefeitura. “Não gosto de vir aqui vender”, revela Aldeli Dias, 48. Poucos Terenas usam nome indígena porque a identificação confeccionada pela Fundação Nacional do Índio (Funai) não tem validade. Todos portam carteira de identidade e usam apelidos nativos entre si.
Aldeli Dias
     
     A aldeia Terena se parece com a localidade indígena do bairro Tiradentes – na capital – onde as residências são de alvenaria, possuem parabólicas e veículos na garagem. Alguns homens Terena ainda realizam as tarefas relacionadas ao plantio, enquanto os jovens deixam a aldeia para trabalharem no comércio de Aquidauana ou tentam estudar na faculdade em Campo Grande. De acordo com a funcionária da Secretaria Municipal de Turismo, Mariana Caldas (fictício) “o índice de suicídio indígena na região é alto devido à falta de emprego. O universitário Terena sofre bullying (discriminação ou violência) no campus e não volta para a aldeia, porque precisa sobreviver”, conta. Inexistem consultórios odontológicos para adultos na aldeia, somente um posto médico com equipe não indígena e concursada. Por causa da estrutura simples do posto, os bebês Terena nascem nas maternidades de Campo Grande. Aldeli afirma que não tem parteira na tribo.  
     Além da ausência de parteira, também não se encontra o pajé. Já a presença de candidatos a cargo político é periódica. “Para nós é muito doído ser enganado por eles, a gente não acredita em ninguém”, confessou uma senhora que não quis se identificar. Até o momento, nenhum Terena mostrou interesse em representar seu povo politicamente. Só as denominações religiosas é que são encontradas de maneira diversificada na aldeia. “Sou convertida desde 87, gosto de ser da igreja. Eles falam que os deuses da gente não prestam”, explica Aldeli.  
Criança indígena brinca na rua do bairro Tiradentes em Campo Grande (MS)


     Por volta das duas da tarde, a feira encerra e as índias retornam para a tribo. Somente as mulheres podem trabalhar na comercialização dos produtos. Podem-se comprar artefatos de barro, colares, lanças, talheres e afins produzidos pelo povo Kadiwéu, na feira de Aquidauana e no Memorial da Cultura Indígena, no bairro Tiradentes. Para quem deseja visitar as aldeias no interior, é necessário ter autorização prévia da Funai ou agendar através do ponto de informações turísticas de Aquidauana. Do contrário, o ato é considerado invasão de território, e ainda pode ser cobrada taxa pelo Cacique. 

Fotos e texto: Osvaldo Junior, DRT 3612 BA