segunda-feira, 14 de março de 2016

“Se Deus é menina e menino, sou masculino e feminino”*

   Bruno Santana (27) cursa a faculdade de Educação Física, enquanto João Hugo Cerqueira (22) gerencia um mercado. O cotidiano destes jovens transmasculinos ou transhomens é dedicado ao trabalho, estudos e na participação de eventos que explicam como é ser um transexual ou transgênero. A pessoa trans é aquela que “... tem o sentimento de pertencer a um sexo com que não nasceu, cujas características físicas deseja possuir ou já possui através de meios médico-cirúrgicos”, conceitua o dicionário online Priberam.
Bruno Santana

   Com o objetivo de adquirir semelhança ao sexo desejado o transexual faz, por exemplo, tratamento hormonal, mas a cirurgia corretora no aparelho reprodutor não é uma escolha comum. “Muitos de nós não desejam passar por essa cirurgia, isso é muito subjetivo, mas infelizmente a gente precisa passar por isso para ter essa cidadania reconhecida, porque a gente precisa existir, ter um nome. Na verdade isso é imposto para a gente e muitos de nós quando passa por esse procedimento fica depressivo, se sente mal porque achava que o erro estava naquele órgão que foi redesignado, retirado, mas não, na verdade o erro está na sociedade que nos oprime. É por isso que a gente luta pela despatologização das identidades trans”, explica Santana. O termo despatologização se refere ao Código Internacional de Doenças (CID) o qual registra a transexualidade como transtorno de identidade.
   Além da polêmica sobre a redefinição genital, o transgênero enfrenta problemas relacionados aos aspectos religiosos. Existem interpretações bíblicas que consideram o trans rebelde contra a criação de Deus. Segundo essas doutrinas, eles são aberrações porque ousaram modificar a naturalidade do relacionamento sexual entre homem e mulher. Cerqueira conta que já foi acusado de estar fora do padrão e até pensou isso sobre si mesmo. “Hoje entendo que não estou no corpo errado, só estou adequando meu corpo a quem eu realmente sou. Eu nem cogitei culpar Deus, simplesmente sou assim e pronto, nunca pensei que Deus errou”, observa.
João Cerqueira
   Na opinião do Rev. Bruno Luiz Teles de Almeida, os transexuais controlam o próprio corpo. “Deus as ama, exatamente como são. A partir da ideia do amor de Deus sobre a vida dessas pessoas, elas precisam reconhecer como elas de fato são, qual é o seu gênero, entender que a biologia e o corpo físico não necessariamente correspondem com a sua alma, com quem de fato você se sente, com seu gênero social. Se essas coisas não correspondem, elas têm todo o direito de mudarem, de fazer reposição do seu corpo, de se reorganizarem socialmente nas suas relações afetivas, na sua relação com o corpo e com o outro, da forma de se vestir, de se produzir, da forma de se portar. Isso de nenhum modo ofende a Deus ou a criação”. O Pároco aconselha os trans a valorizarem a comunhão com Deus, buscando boas relações com os amigos, família, e paz em alguma entidade religiosa que participem. “Deus o ama tanto que lhe deu saúde, condição de trabalho, a faculdade de pensar, decidir, inclusive de fazer a sua reposição de gênero, de corpo. Eu acho que essa é a principal questão para que essas pessoas possam entender que o fato do seu corpo e gênero não corresponderem, não quer dizer que Deus a ama menos e muito menos que esse conflito se dá por causa de uma ação diabólica”, ressalta. 

Políticas públicas e legislação

   Os benefícios sociais para os transgêneros brasileiros tem crescido. Com a Resolução 12 (16/1/15) o Conselho Nacional de Combate à Discriminação e Promoções dos Direitos de Lésbicas, Gays, Travestis e Transexuais (CNCD/ LGBT) garante o reconhecimento e adoção do nome social em formulários e uso de banheiro. Outra conquista é a possibilidade de alteração no registro civil, através da abertura de processo administrativo. A alternativa de esperar uma decisão judicial é demorada. Por causa dessa dificuldade, o Projeto de Lei 5002/2013 tramita no Congresso Nacional e indica que seja feita a troca de nome dispensando o processo judicial. 

   * Masculino e Feminino, composição de Baby do Brasil, Didi Gomes e Pepeu Gomes. Texto: Osvaldo Junior DRT BA 3612. Fotos: Osvaldo Junior e Antonio Magalhães.