quarta-feira, 13 de abril de 2016

A Bíblia na barbearia: modos de interpretar as Escrituras

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     Fui ao barbeiro. Como nossa visão é seletiva, observei imediatamente que havia algumas edições diferentes das Escrituras nas prateleiras. Então, para estabelecer comunicação, já que era a primeira vez que eu ia ali, perguntei:
    - Você é católico ou evangélico?
     Eu já havia percebido que ele era evangélico, como de fato ele me perguntou, mas valia a pergunta. E ele replicou com uma pergunta congênere, à qual respondi:
     - Sou anglicano.
     E logo tive que ir explicando o que era a Comunhão Anglicana. Como era de se esperar, o camarada ficou meio sem entender que católico e protestante não são termos excludentes. Mesmo explicando que católica é uma propriedade da Igreja de Cristo, antes de ser o nome de uma denominação cristã.
     Perguntei, então, qual era a denominação cristã dele e ele me disse um nome que não guardei na memória, mas que logo entendi se tratar de um ministério local, independente de qualquer denominação cristã antiga. E ele foi logo me dizendo que a comunidade se fundamenta apenas no que está nas Escrituras “e nenhum líder é maior do que o que está no Texto Sagrado”, me confessou. Por isso, ele estudava diversas traduções da Bíblia, inclusive católicas. E, de fato, percebi que ele conhecia as Sagradas Escrituras, para além da compreensão literal que povoa a maioria das comunidades evangélicas.
     Então era a minha vez de falar. Confirmei que, na Comunhão Anglicana, a Bíblia é a principal autoridade, mas que sua interpretação se dá mediada por outras realidades, o famoso tripé teológico Bíblia – Tradição – Razão, já que não temos no texto todas as informações para compreender o que a própria passagem significa. Ele enganchou na palavra Tradição, mas depois de explicado, compreendeu e concordou. Como falei, ele estava muito além da tradicional interpretação que muitas comunidades evangélicas fazem da Bíblia.
     Sei que, se eu desdobrasse todos os termos a que pode chegar esse método de interpretação, ele pararia, estacionaria na concordância. É que, além de um modo de interpretar a Bíblia, ele está inserido numa tradição da qual não pode se desprender, que é a tradição evangélica neopentecostal estabelecida no Brasil.
     Aguardem cenas para as próximas idas ao barbeiro.


Professor Adriano Portela dos Santos